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Você ensina o seu atleta a perder?

Você ensina o seu atleta a perder?

Porque é tão importante trabalhar a derrota com as crianças e jovens na formação.

Eu coordeno um projeto de Futsal para crianças e adolescentes dos 04 aos 17 anos aqui na UFOP. E nele tivemos uma situação recorrente nas últimas semanas que acabou me chamando a atenção sobre o que escrever aqui.

Não vou citar o nome real do aluno aqui, vou chamá-lo de Alex. Alex tem 7 anos e joga com a gente desde que tinha 4. Ele é o melhor jogador na turma dos 5 aos 8 anos. É o maior da turma, o mais rápido, já consegue dar dribles curtos, longos, caneta, carretilha, chapéu, bicicleta, é bom no gol e geralmente é o que entende mais rápido todos os exercícios e atividades que propomos nas aulas.

Nós sempre terminamos nossas aulas com o jogo. Sempre tentamos equilibrar os times com alunos da mesma idade e do mesmo nível técnico. Na semana passada, durante o jogo, na hora que trocamos os Goleiros dos times, Alex chegou perto de mim e me perguntou: “Posso fazer goleiro-linha? Meu time está perdendo e não faz gol”. Na hora eu disse a ele que podia e, na primeira oportunidade, ele pegou a bola e saiu driblando todo o time adversário até marcar um gol. Acabou o jogo pouco depois daquele lance, o time do Alex perdeu mesmo assim e ele acabou saindo emburrado com a derrota.

Na quinta feira, depois que dividimos os times, de novo Alex teve o mesmo comportamento de antes. Pedia a bola toda hora e, quando seus companheiros não tocavam, ele corria, pegava a bola deles e queria sair driblando todo mundo sozinho. Quando perguntei para ele o porquê daquele comportamento, ele me disse: “Meu time é ruim, aí eu tenho que fazer o gol”.

Nesta semana, aconteceu o comportamento que me chamou a atenção. Estávamos fazendo uma brincadeira chamada ‘Pega o prato’, onde cada aluno tem 3 pratinhos e a ideia é você pegar o maior número possível de pratinhos do seu adversário enquanto defende os seus. Estava com dois alunos de 5 anos quando de repente vi Alex passando perto de mim, pisando duro, cabeça baixa, emburrado, indo atrás da bola dele. Enquanto isso, no outro lado da quadra, o menino que o enfrentava, pulava e comemorava a vitória na brincadeira.

Resultado: Alex pegou a bola, voltou para o lugar dele, sentou no chão, abaixou a cabeça e começou a chorar.

Nessa hora deixei um dos monitores tentar conversar com ele, mas, vendo que não estava adiantando nada, já que ele seguia com o choro, interrompi a brincadeira e chamei todos os alunos para conversar no centro da quadra.

O ser humano é competitivo.

Se a competitividade é inerente ao ser humano, ela é ainda mais forte no Esporte.

  Segundo o dicionário Aurélio, a definição da palavra Inerente é a seguinte:

“O que está ligado de forma inseparável ao ser. É aquilo que está intimamente unido e que diz respeito ao próprio ser.

Inerente é o que faz parte da pessoa ou coisa e que lhe é inseparável por natureza.

É o que é intrínsecopeculiarespecífico e que pode servir para caracterizar algo ou alguém.”

A competitividade é algo inerente ao ser humano.

Nós mal nascemos e já estamos competindo. Queremos ser sempre o melhor filho, o melhor aluno da sala, o melhor aluno do inglês, o melhor jogador de futebol, o melhor dançarino do ballet, o melhor jogador do vídeo game, o melhor aluno do estágio, o melhor profissional do mercado, o melhor pai ou mãe e por aí vai.

Há diferença no tipo de cobrança que sofremos por parte do ambiente que estamos, por parte dos pais ou professores, mas há sempre a cobrança pela competição em nossa vida. “Você acha que isso é suficiente?”, “Você pode fazer melhor que isso”, “Se fulano tirou B, você consegue tirar A” são apenas algumas das frases que ouvimos enquanto crescemos e que estão ligadas diretamente ao instinto competitivo. As crianças, mesmo que inconscientemente, são diariamente desafiadas a mostrar que são capazes.

No Esporte, a competição é ainda mais inerente. É praticamente impossível você não sair derrotado em algum momento da sua vida esportiva. O contexto é simples e direto: Um ganha, o resto perde. Independente de todos os valores trabalhados, temos que concordar que essa pode ser uma realidade cruel e muitas vezes esquecidas pelos treinadores e profissionais que atuam nela, principalmente durante a formação.

Na maioria das vezes o foco e cobranças em resultados e conquistas acabam fazendo com que a questão de abordar e trabalhar a derrota com seus atletas acabe ficando de lado ou negligenciada. Junte a isso um ambiente onde você geralmente tem pais gritando e berrando com seus filhos, ofendendo treinadores e árbitros, cobrando por gols, pontos e vitórias, muito das vezes querendo descontar a frustração deles enquanto crianças em seus próprios filhos e temos um ambiente onde a competição fica ainda mais evidenciada.

A criança assim acaba praticando um esporte desde cedo, inserida em um ambiente extremamente competitivo, escutando que é preciso ganhar sempre, convivendo com um ambiente estressante, que acaba gerando decepção quando ele não vence. Isso gera desmotivação, tristeza e certas vezes culminam em um adulto frustrado por se sentir um derrotado.

Mas na verdade não precisa ser sempre assim.

Ensine o seu aluno a perder. 

Ao ensinar seu aluno o valor da derrota, você estará contribuindo ainda mais para a formação dele como pessoa. E isso vale mais que qualquer vitória ou troféu.

 É fato que ninguém entra em uma competição pensando somente em participar. Independente do nível do time, sempre há a vontade de ganhar. E devemos estimular esse sentimento, mas de forma saudável.

A competição, tanto no Esporte quanto na vida, deve servir para ensinar principalmente que podemos ganhar e também podemos perder. Não vamos ganhar sempre e isso é algo normal. Se for analisar é bem provável que um esportista tenha mais derrotas do que vitórias em sua carreira. Vitórias, troféus e medalhas não podem ser os únicos indicadores de sucesso no Esporte.

A ideia de trabalhar a derrota com seus alunos é mostrar para eles que nem sempre eles serão os melhores ou os mais brilhantes naquilo que fazem. Que sempre terá alguma outra pessoa que poderá ser melhor que ela, mas, que ao invés de desistir, que ela possa aprender com a derrota a se superar, a buscar melhorar e a nunca desistir. É aceitar a derrota sabendo que ela fez tudo o que podia e que há a chance de vencer em uma próxima oportunidade, criando assim um espírito de resiliência e perseverança nas crianças e jovens.

É preciso trabalhar também exemplos dentro e fora de casa, mostrar que não se deve querer vencer a qualquer custo ou mesmo trapacear para conseguir vitórias. O foco deve ser valorizar sempre o esforço, nunca o resultado. Até porque nem sempre na vida vamos conseguir tudo o que queremos.

Esse tipo de trabalho estimulará valores que serão refletidos durante a formação dela, seja como atleta ou pessoa, culminando diretamente na postura e caráter dela quando adulto.

Apesar de o Esporte estimular ainda mais a competição, é possível mostrar que há um ambiente que estimule bons valores, o espírito esportivo, a empatia, o respeito e, principalmente o valor no esforço e na preparação para ser bom naquilo que se faz. Ganhar e perder faz parte, mas tudo se resume na forma como você ganha ou perde.

No dia de conversa com o Alex, explicamos para os meninos da turma o porquê dele estar chorando. Foi quase 5 minutos de conversa com eles sobre o porquê de homem também chorar, o porquê de ter que saber ganhar e perder e, principalmente, que toda derrota leva a uma lição de que eles sempre vão aprender algo seja perdendo ou ganhando. Também explicamos para eles novamente as regras da brincadeira e mostramos que a pessoa que eles estavam jogando contra também queria ganhar. Ou seja, qualquer um deles poderia ganhar ou perder. E o mais importante foi que a turma também falou a respeito, assim como o Alex.

Como resultado da conversa, hoje fizemos um Atlético x Cruzeiro no final da aula e o time do Alex perdeu por 1×0. Ele passou a bola para os colegas ao invés de querer sair correndo com ela o tempo todo, não reclamou em momento nenhum, veio nos cumprimentar no final do treino e foi embora com a avó sorrindo.

Não sei como vai ser o comportamento do Alex na semana que vem, mas hoje já tivemos uma pequena vitória que pode significar muito para ele no futuro.

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